SAÚDE MENTAL

Terapia Ocupacional no tratamento da dependência química

PAMELA GONÇALVES ALVES

Terapeuta Ocupacional: Pâmela Gonçalves Alves

 Por Márcia Martins

 

A dependência química causa desarranjos familiares e sociais. Quem deseja tratar o vício e trilhar outro caminho, precisa ter incentivo, força de vontade e também um tratamento adequado. Os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPsAD) têm equipes multidisciplinares, cujos profissionais são capacitados para atender e cuidar de pacientes usuários de álcool, crack e outras drogas. A Terapia Ocupacional faz parte deste cenário e contribui no tratamento daquele que deseja retomar sua vida, abandonando a dependência química. Em alusão ao Dia 26 de junho escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional de Combate às Drogas, o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito-9) conversou com a Dra. Pâmela Gonçalves Alves, que é terapeuta ocupacional e conselheira do CREFITO-9.

 

A profissional possui graduação em Terapia Ocupacional pela Universidade São Camilo SP. (2009). Tem experiência na área de Terapia Ocupacional, com ênfase em Saúde Mental, criança e adolescência. Pós-graduação em Saúde do Idoso e Gerontologia, e Pós- Graduação em Alterações do Desenvolvimento da infância- Modelo Lúdico e trabalha no CAPSi Curumim, em Cuiabá.

 

 

 

Crefito-9 - O que são os CAPS AD e quais atendimentos são prestados ou o que eles oferecem?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela - Os Centros de Atenção Psicossocial surgem no Brasil como equipamento de saúde substitutivo ao modelo Manicomial, Hospitalocêntrico e centrado no modelo médico. Os Caps fazem parte de um modelo de atenção que considera o sujeito como o todo, incluindo a família e a comunidade nos cuidados ao indivíduo, possuem equipe multidisciplinar, que trabalha de modo interdisciplinar e por vezes transdisciplinar buscando atender aos novos conceitos de saúde que preconiza a  Organização Mundial da Saúde (OMS), que afirma que saúde é o bem estar biopsicossocial e espiritual do sujeito e não mais a ausência de doença. Os serviços oferecidos em CAPS funcionam com as portas abertas, e conta com a interação de uma equipe multidisciplinar que inclui psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, enfermeiro, médico, técnico de enfermagem, podendo conter outros profissionais conforme a demanda contemplada no Projeto Terapêutico Global (PTG) de cada Unidade.

 

Crefito-9 – Quem pode procurar os serviços oferecidos no CAPS AD?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela - o CAPS AD é um serviço regulador de rede, funciona com “portas abertas”, ou seja, a qualquer dia dentro do horário de atendimentos o sujeito poderá buscar o serviço espontaneamente para que seja acolhido e escutado dentro de sua angústia e a sua queixa. A clientela do CAPS AD difere-se por se tratar de pessoas com problemas de uso e abuso de álcool, crack e outras drogas, e a equipe que os atende no CAPS Ad precisa ser especializada para responder adequadamente a demanda apresentada por cada sujeito que procura o serviço, precisa ser empático, saber ouvir sem preconceitos e amarras.

 

 

 

 Crefito-9 – Como é o trabalho do Terapeuta Ocupacional junto a pacientes que são usuários de álcool ou outras drogas?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – a atividade humana existe desde os primórdios da civilização, sendo assim o instrumento de trabalho da terapia ocupacional se encaixa nos mais diferentes contextos e populações. Analisar a atividade humana, o cotidiano, as perspectivas do sujeito por nós atendido. Com a população de usuários de álcool, crack e outras drogas isso não difere muito, mesmo porque quando pensamos nos papéis ocupacionais, é visível que o indivíduo que faz uso de substância apresente dificuldades na motivação, na construção de projetos de vida, na conclusão de suas atividades de vida prática principalmente. Tendo em vista essas dificuldades, o papel do terapeuta ocupacional em um CAPS Álcool e Drogas é por meio do uso das atividades estruturadas e construções de pequenos projetos de vida, que procuram  auxiliar o sujeito a confiar em suas capacidades cognitivas, sociais e até mesmo afetivas e aos poucos reconquistar a sua autonomia e a capacidade de planejar, e gerir a própria vida.

 

Crefito-9 – Qual a maior dificuldade na realização deste trabalho da Terapia Ocupacional?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – a grande rotatividade que ocorre nos CAPS AD é porque o sujeito precisa querer ser tocado, ele precisa escolher construir o novo e olhar para si, muitos não suportam e deixam o serviço, outros não conseguem apoio da família e da comunidade e deixam de frequentar as oficinas, acreditando que haverá uma “Pílula Milagrosa” que vai resolver todos os seus problemas. Muitos profissionais reclamam que a maior dificuldade é a falta de material para as oficinas, eu discordo, porque o que temos de mais precioso é o material humano, é o quanto o profissional se entrega para intervir com o sujeito nós terapeutas ocupacionais muitas vezes emprestamos a nossa vontade para ajudar o sujeito a se orientar no mundo.

 

Crefito-9 – como deve ser a formação do Terapeuta Ocupacional que atua com dependentes químicos?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – poderia eu aqui pontuar que se faz necessário ser graduado em Terapia Ocupacional, e fazer especializações em dependência química, porém, precisa-se muito mais do que isso para atuar com dependentes químicos. O profissional precisa ser empático, buscar constantemente atualizações e as capacitações nos diferentes projetos do Ministério da Saúde através da Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad), ler muito sobre os estudos e experiências de outros profissionais e serviços que atendem essa população. Escolher um referencial teórico e ter conhecimentos dos mais diferentes tipos de referencias, para saber respeitar os diferentes saberes, e compreender que para cada sujeito a abordagem deve ser individualizada. Também deve ter amplo conhecimento nas alterações do desenvolvimento da infância, conhecer sobre as ações da Terapia Ocupacional no território, na reabilitação psicossocial e até mesmo em reabilitação cognitiva. O profissional precisa se instrumentalizar constantemente na compreensão dos Domínios e Processos da Terapia Ocupacional e do mesmo modo da Análise da atividade, compreendendo a condição e a situação do sujeito, tais instrumentos permitirão que o profissional seja capacitado para atender a essa população.

 

Crefito-9 – É difícil não se envolver com o drama de cada paciente/família que se encontra nesta situação da dependência química?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – O profissional pode se identificar com o sofrimento do sujeito e da sua família, porém, é necessário ter seriedade e tranquilidade para que as minhas angústias não influenciem no tratamento do sujeito, nesse momento é muito valorizado o papel da equipe interdisciplinar, porque quando um dos profissionais começa a ultrapassar a barreira do profissionalismo e indo para as questões pessoais dele, o outro profissional sinaliza e por vezes nos afasta do caso. Uma coisa que falta em todos os serviços de saúde é acompanhamento psicológico para os profissionais, cuidando de quem cuida, porque a saúde mental nos adoece, e se a equipe não esta bem, fica difícil prestar um serviço de qualidade.

 

 Crefito-9 – Sabemos que quando há dependência química, nem sempre o dependente tem forças para lutar contra o vício e acaba abandonando o tratamento. Nestes casos, o que pode ser feito? Como a Terapia Ocupacional pode ajudar no retorno desses pacientes?

 

 

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – Nesse momento precisa discutir junto com a equipe o caso, o que aconteceu com o vínculo, porque ele se rompeu e tentar pensar qual é a dificuldade. Nesse período aparece também a nossa impotência enquanto profissional, sabemos que se faz necessário intervenção domiciliar, e mapeamento da região bairro e comunidade, para tanto os serviços deveriam contar com um carro com motorista para a realização dessas buscas ativas, o telefone neste momento é extremamente ineficiente.

 

Crefito-9 – Como deve ser a participação da família do paciente durante este tratamento? Além de apoio, a família também precisa de tratamento?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – trabalho com saúde mental há mais de oito anos, passei por todas as modalidades de CAPS em Cuiabá, ou seja, Transtorno Adulto, CAPs AD adolescer e agora no CAPs infantil, e o que essas famílias têm em comum, é o envolvimento com álcool, crack e outras drogas. Não somente no sujeito que é atendido, às vezes a criança autista tem um pai com vício em álcool, ou a mãe fez uso durante a gestação, famílias violentas, ou famílias amorosas, o fato é que a raiz da maioria das enfermidades está na família. A família hoje é construtora de sintomas e patologias das mais diferentes possíveis, sendo assim o mais importante no tratamento é que a família se implique, que os pais que trabalham muito, parem, olhem e conversem sobre os seus filhos, enxerguem o indivíduo e não somente os problemas, afinal todos sofrem.

  

Crefito-9- Em Mato Grosso vemos um grande debate sobre a forma de lidar com os usuários de crack. As reportagens mostram pessoas em estado deplorável, sem aparente consciência. Qual o melhor caminho para isso? O tratamento compulsório? Esperar a iniciativa do usuário? Qual a leitura que a senhora faz desta situação?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – É triste enxergar a que ponto chega o ser humano, precisamos cada vez mais falar sobre isso, mas falar sem preconceitos, sem julgamentos, ouvir e entender o que está acontecendo. Não acredito em receita de bolo para o cuidado de sujeito que utilizam substâncias psicoativas, penso que cada sujeito tem uma história, uma família, escolhas, caminhos que se cruzam e modificam o sujeito. Não creio em tratamentos violentos, a menos que haja risco de vida do sujeito e de terceiros, uma coisa para mim é bem clara não é possível se recuperar sozinho, é necessário que a família seja tratada, o sujeito seja cuidado e acolhido, a comunidade seja preparada para receber a pessoa que busca mudança para melhor. Deve se trabalhar a prevenção, mas não aquela que apregoa aos quatro ventos que droga é ruim, mas sim que os pais olhem para seus filhos, que a palavra e o diálogo circulem nos mais diferentes lares, que não se deseje mal ao próximo. Que cada sujeito seja entendido como único. Novas drogas surgem a cada dia e os adolescentes procuram cada vez mais modos para enfrentar as suas dificuldades, ou pertencer a grupos que o façam sentir importantes. Atualmente cresce o número de adolescentes com ideações suicidas, adolescentes auto-cortantes, desafios cada vez mais destrutivos, cada vez mais, não se tem perspectiva de futuro.

  

Crefito-9 - Quais as recomendações para o Terapeuta Ocupacional que pretende atuar junto a dependentes químicos?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – Entender a si mesmo, saber ouvir ativamente, sem preconceitos, ser empáticos. Ler sobre o assunto, há muitos artigos científicos que tratam dessa questão, realizar atualizações permanentes, a internet é uma ótima ferramenta com grupos de estudo, cursos online.

  

Crefito- 9 - Anteriormente perguntamos sobre a maior dificuldade na realização deste trabalho. Agora destaque qual a maior gratificação?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – Ver que o sujeito conseguiu se inserir no mercado de trabalho, constituir família.

   

Crefito-9 - Qual é o momento para se procurar uma internação para o tratamento da dependência química?

 

Terapeuta Ocupacional Pâmela – Essa resposta precisa vir de dentro de cada sujeito, precisa ser uma escolha pessoal.    

 

Trinta, dos 141, municípios mato-grossenses têm graves problemas com drogas. O levantamento faz parte de relatório encaminhado pelas prefeituras a Confederação Nacional dos Municípios. Os problemas estão presentes principalmente em pequenas cidades e em região de fronteira. O levantamento mostra ainda que a droga é um grave problema para 1.155 municípios do Brasil dos 5.570 existentes, ou seja, uma a cada cinco cidades tem graves transtornos com tóxicos. O último levantamento da Secretaria Nacional Antidrogas apontou que o país tem cerca de dois milhões de usuários de crack e 29 cracolândias em 17 cidades.

 

 

 

 

 

 


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